
Cemitério dos Prazeres: Mausoléus, Arquitetura e um dos melhores miradouros para o Rio Tejo
📌 Informações Práticas
Segunda-feira a Domingo: 09:00 – 18:00
Entre mausoléus e uma vista larga sobre o Tejo
Subimos a Rua Coelho da Rocha num fim de manhã e o portão do Cemitério dos Prazeres apareceu de repente, maior do que esperávamos. Mal entrámos, reparámos numa ampulheta esculpida no muro, com um par de asas — de morcego, achamos — dobradas sobre ela. Só mais tarde soubemos que é um símbolo funerário clássico, ligado à passagem do tempo e à ideia de que a morte chega sem avisar.
Achámo-lo um pouco sinistro — ou talvez fosse só o calor do meio-dia a exagerar-nos a imaginação, não tenho bem a certeza.

O cemitério ocupa uma colina inteira em Campo de Ourique, com ruas próprias, nomes de família gravados em pedra e uma vista que se abre, lá ao fundo, sobre o rio Tejo e a Ponte 25 de Abril. Não é um jardim com bancos e sombra — é uma cidade em miniatura, feita de avenidas de mausoléus.
Depois da epidemia, uma colina fora da cidade
O Cemitério dos Prazeres abriu no início da década de 1830, pouco depois de uma epidemia de cólera ter obrigado Lisboa a repensar onde enterrava os seus mortos. Até então, os enterramentos faziam-se sobretudo dentro das igrejas.
O nome não tem nada de poético por trás. Vem da Quinta dos Prazeres, a propriedade rural que ocupava o terreno antes de ali se construir o cemitério — o que faz deste o único sítio em Lisboa onde “ir aos Prazeres” significa visitar campas, não outra coisa qualquer.

A localização, fora do centro na altura, fazia todo o sentido sanitário. Hoje Campo de Ourique é um dos bairros mais centrais de Lisboa, e o cemitério ficou rodeado de prédios, mercado, escolas — uma vizinhança normal, com um portão enorme no meio dela.
O que a pedra tenta dizer
Ampulhetas aladas, tochas viradas ao contrário, colunas partidas a meio: quem passeia pelas avenidas principais vai encontrando os mesmos símbolos a repetir-se de jazigo em jazigo. Diz-se, entre quem estuda estas coisas, que muita desta simbologia chegou a Portugal através das lojas maçónicas do século XIX, que tinham entre os seus membros boa parte da burguesia lisboeta ali enterrada.

A tocha invertida representa a vida que se apaga. A coluna partida, uma vida interrompida antes do tempo.
Reparámos também em várias esfinges e obeliscos, um pouco por todo o lado — um eco do gosto oitocentista pelo Egipto antigo, mais decorativo do que religioso. Não tentámos identificar todos os símbolos; ficámos só a admirar a quantidade de detalhe que cabe num único muro de jazigo.
O jazigo dos Duques de Palmela e a diferença para o Alto de São João
Já tínhamos visitado o Cemitério do Alto de São João antes desta visita, e a diferença salta à vista assim que se entra. Lá há muito mais campas rasas, terra e relva entre os jazigos. Aqui, os mausoléus dominam quase por completo, enfileirados uns a seguir aos outros como se fossem casas de uma rua. Perdemos a conta a meio do passeio.

O ponto alto, sem qualquer dúvida, é o jazigo dos Duques de Palmela, considerado o maior mausoléu de Portugal. É uma construção neogótica imponente, com torreões e vitrais, que mais parece uma pequena capela do que um túmulo de família.
Preferimos claramente este jazigo a qualquer outro do cemitério — a escala e o detalhe arquitetónico não têm comparação, mesmo entre os mausoléus maiores das avenidas vizinhas.
Nomes que reconhecemos entre os jazigos
Soubemos, já depois da visita, que o jazigo da família Soares fica algures neste cemitério e que é ali que está sepultado Mário Soares, uma das figuras mais importantes da política portuguesa do século XX. Não o encontrámos — não sabíamos exatamente onde procurar, e o cemitério é grande demais para se percorrer avenida a avenida sem um mapa. Fica para a próxima.

Outras figuras célebres passaram por aqui antes de serem transladadas para o Panteão Nacional, na Igreja de Santa Engrácia. Amália Rodrigues é o exemplo mais conhecido: esteve sepultada no Cemitério dos Prazeres durante décadas, entre familiares, antes de os seus restos mortais serem transferidos para o Panteão. O mesmo aconteceu a outras figuras da cultura portuguesa sepultadas inicialmente em Lisboa.
A vista sobre o Tejo, vista de dentro de um cemitério
O melhor ponto para a vista, na nossa opinião, fica junto ao muro poente, a meio do cemitério. O muro ali é baixo. Dali avista-se o Tejo e a Ponte 25 de Abril quase sem obstáculos, com os telhados de Campo de Ourique e Alcântara a descer até à água.

Preferimos claramente este canto a qualquer outro miradouro dentro do recinto. Há outros pontos altos, mas alguns têm ciprestes a tapar parte da vista; outros ficam demasiado perto de sepulturas recentes para nos sentirmos à vontade a fotografar ali.
Ao final da tarde, com o sol baixo, a luz bate direita na fachada dos mausoléus mais próximos do muro e a pedra fica quase dourada. Não sabemos se é sempre assim — fomos lá num fim de tarde de verão, e pode ser só um efeito daquela altura do ano.

Os ciprestes lançam sombras compridas sobre as campas mais próximas do muro.
Campo de Ourique para lá do portão do cemitério
Saindo do cemitério, Campo de Ourique estende-se em quarteirões tranquilos, com uma vida de bairro que contrasta com o silêncio lá dentro. A cerca de dez minutos a pé fica o Jardim da Estrela, com a sua Basílica de cúpula branca bem visível de longe.

Mais perto ainda está o Museu Bordalo Pinheiro, dedicado ao ceramista que deu nome à figura do Zé Povinho, e que atrai sobretudo quem gosta de cerâmica e caricatura portuguesa do século XIX.
Do lado da Basílica, o Palácio de São Bento — sede da Assembleia da República — fica a uma curta distância, e as torres das Amoreiras, com a sua arquitetura pós-moderna tão diferente do resto do bairro, marcam o horizonte a norte. Reparámos nisso mais do que esperávamos, a subir uma rua qualquer sem grande destino.
Um dia inteiro entre Campo de Ourique e o cemitério
Comece a manhã no Mercado de Campo de Ourique, com um café e algo doce, e desça depois até ao Jardim da Estrela. Suba de volta devagar, passando pelo Museu Bordalo Pinheiro, e deixe o Cemitério dos Prazeres para o fim da tarde — é quando a luz fica melhor junto ao muro poente.
Reserve pelo menos uma hora e meia lá dentro; é fácil perder a noção do tempo entre as avenidas de mausoléus. Se preferir não caminhar tudo, apanhe o elétrico 28 a meio do percurso — tem ali mesmo, em Campo de Ourique, a sua última paragem.
Onde comer e quanto custa visitar
A entrada no Cemitério dos Prazeres é gratuita — não há bilhete nem torniquete, entra-se como quem entra num jardim público. Para quem só tem uma hora livre em Campo de Ourique, isto facilita bastante a decisão de parar ali.
Para comer, a nossa escolha vai sempre para o Mercado de Campo de Ourique, na Rua Coelho da Rocha, a poucos minutos a pé do cemitério. Tem bancas de petiscos, peixe grelhado e uma zona de pastelaria que costuma encher ao fim de semana.
Preferimos claramente o mercado a qualquer restaurante fechado da zona: a variedade permite que cada pessoa do grupo escolha algo diferente, sem pôr todos de acordo à mesa. Nos dias mais cheios não é fácil arranjar lugar — já ficámos à espera minutos a fio, copo na mão, à porta de uma das bancas mais concorridas, sem nunca perguntar o nome.
Perguntas Frequentes
É preciso marcar a visita com antecedência?
Não. Entra-se livremente, dentro do horário de funcionamento, sem qualquer reserva.
Vale a pena ir num dia de chuva?
Vai depender do que procura — a atmosfera fica diferente, mais fechada, mas a pedra molhada realça os detalhes esculpidos dos jazigos. Se o objetivo for a vista sobre o Tejo, um dia limpo compensa mais.
O cemitério é acessível a pessoas com mobilidade reduzida?
As avenidas principais são largas e relativamente planas, mas há troços de calçada irregular e algumas zonas em pedra solta que dificultam a circulação de cadeiras de rodas.
Há loja ou quiosque dentro do recinto?
Não que tenhamos encontrado. Quem precisar de água ou de comer algo tem de sair e ir até ao Mercado de Campo de Ourique, ali perto.
Informações Práticas
Onde Estacionar
O estacionamento é na rua, em zona tarifada da EMEL nos dias úteis, com maior aperto a meio da manhã e ao final da tarde, quando o mercado e as escolas da zona enchem as ruas próximas. Aos fins de semana costuma ser mais fácil encontrar lugar junto ao próprio portão do cemitério.
Transportes
O elétrico 28 tem a paragem “Prazeres” mesmo à entrada, sendo essa a sua última paragem do lado de Campo de Ourique. A pé, desde a estação de metro do Rato, na linha azul, contam-se cerca de quinze a vinte minutos, a subir. Vários autocarros da Carris servem também o bairro de Campo de Ourique.
Dicas Práticas
O piso é sobretudo calçada portuguesa, irregular em vários troços e escorregadia depois de chuva — leve calçado com boa aderência. A sombra é escassa fora das avenidas com ciprestes, por isso leve chapéu se for visitar a meio do dia. Para evitar grupos, prefira uma manhã de semana; ao fim de semana enche mais junto ao portão principal.









