
Jardim da Estrela: Coreto de ferro forjado e lagos
📌 Informações Práticas
Segunda-feira a Domingo: 07:00 – 00:00
Chegámos lá num daqueles dias em que Lisboa decide que agosto é para valer, com o sol a cair a pino sobre a Praça da Estrela. E, mesmo assim, entrar no jardim foi quase um alívio físico. As copas das árvores mais antigas fecham-se sobre os caminhos principais e criam corredores de sombra que atravessam praticamente todo o espaço — o calor lá fora não desaparece, mas dentro do jardim torna-se suportável.

Reparámos logo que este deve ser, com boa margem, o parque com mais pessoas por metro quadrado em toda a cidade: toalhas de piquenique encostadas umas às outras, bolas a voar, cães à trela e sem trela. Entre a Basílica da Estrela, ali mesmo em frente, e o eléctrico 28 a passar a poucos metros, o jardim funciona como uma espécie de sala de estar coletiva de Lisboa.
Um jardim mais velho do que a maior parte dos que restam
Inaugurado em 1852, o Jardim da Estrela é um dos primeiros jardins públicos da cidade, desenhado num estilo romântico à inglesa que ainda se reconhece nos caminhos sinuosos e nos canteiros recortados. O nome oficial é Jardim Guerra Junqueiro, em homenagem ao poeta — mas quase ninguém lhe chama assim, e nós próprios só usamos o nome oficial quando queremos soar eruditos.

Tem forma vagamente pentagonal, fechado por uma grade com várias entradas, todas a confluir no largo onde está o coreto. É esse ponto que organiza o jardim inteiro: chegue por onde chegar, mais cedo ou mais tarde acaba ali.
O leão que, dizem, viveu no jardim
Há uma história que se conta sobre o Jardim da Estrela e que vale a pena repetir, mesmo sem certezas absolutas sobre todos os detalhes: diz a tradição que, ainda no século XIX, viveu ali um leão verdadeiro, oferecido por um administrador colonial e explorador de África de seu nome Paiva Raposo. O animal terá sido uma atração do jardim durante algum tempo, num Portugal em que zoológicos e jardins públicos ainda se confundiam um pouco. Não conseguimos confirmar todos os pormenores desta história junto de quem passeava por ali naquele dia — mas a placa que a recorda, se existir, escapou-nos por completo.
O coreto que veio da Avenida da Liberdade
Este é, sem dúvida, o maior destaque arquitetónico do jardim — mesmo estando, na altura em que lá estivemos, coberto de tapumes e em obras de restauro. O coreto de ferro forjado nasceu longe dali: foi inaugurado em 1894 no antigo Passeio Público, onde hoje passa a Avenida da Liberdade, com projeto do arquiteto José Luís Monteiro, o mesmo nome por trás da Estação do Rossio.

Quando o Passeio Público deu lugar à avenida moderna, o coreto foi desmontado peça a peça e voltou a ser erguido no Jardim da Estrela, com nova inauguração a 15 de outubro de 1936, ao som da banda da GNR. É hoje o maior coreto de Lisboa. Mesmo tapado, dá para perceber a filigrana do ferro contra o céu.
O lago, os patos e as raízes viradas para cima
O lago principal fica na zona mais baixa do jardim e é, sem surpresa, o centro das atenções de quem visita com crianças. Os patos circulam entre as pessoas com aquela indiferença própria de quem já viu tudo — cliques de telemóvel, gritos de miúdos, migalhas de pão atiradas sem grande pontaria.

Junto às margens, algumas das árvores mais antigas têm raízes que, ao longo de muitos anos, saíram da terra e ficaram à superfície, grossas e retorcidas; servem hoje de baloiço improvisado e obstáculo de equilíbrio para os mais novos, que passam ali tardes inteiras a subir e a escorregar. Fica registado: leve o lanche, mas não espere sossego junto à água.
A casinha que cheira a madeira
Perto de uma das entradas está a Casa do Jardim da Estrela, um antigo chalé de madeira branco que, durante cerca de cento e vinte anos, funcionou como creche — a primeira do género em Portugal. Hoje é um pequeno centro cultural, com biblioteca integrada na rede municipal e, desde 2026, uma xiloteca aberta ao público.

Para quem nunca ouviu a palavra: uma xiloteca é uma coleção organizada de amostras de madeira, cortadas e catalogadas por espécie, usada para fins científicos, pedagógicos e de identificação botânica — uma espécie de biblioteca, mas de troncos em vez de livros. Entrámos por curiosidade e ficámos bem mais tempo do que planeávamos a cheirar cedro e sobreiro lado a lado.
Piqueniques, aniversários e a lotação informal do relvado
Um dos traços mais marcantes deste jardim é como ele funciona, ao mesmo tempo, como parque de bairro e como sala de festas a céu aberto — mesmo estando praticamente no centro de Lisboa. Vimos várias festas de aniversário organizadas em toalhas e mesas de piquenique, com balões amarrados às grades e bolos transportados em caixas de cartão.

Nos relvados maiores, junto ao lago, dificilmente se encontra um espaço vazio ao fim da tarde de sábado. Achámos isto bonito — ou talvez fosse só o calor a fazer-nos ver tudo com mais simpatia do que o normal.
Guerra Junqueiro, o elétrico 28 e o resto do bairro
Do lado de fora das grades, o Jardim da Estrela está diretamente ligado ao ritmo do bairro. O elétrico histórico da linha 28 passa mesmo junto à Praça da Estrela, o que faz do jardim uma paragem quase obrigatória em qualquer roteiro turístico pelo elétrico mais fotografado da cidade.

Não hesitamos em recomendar entrar pelo portão principal, em frente à Basílica — é o acesso mais fotogénico e o que fica mais perto da paragem do elétrico, o que poupa uma caminhada desnecessária a quem já anda cansado. Os autocarros 709, 713, 720, 738 e 773 também param nas imediações.
O que fica a cinco minutos a pé
A Basílica da Estrela domina a praça em frente ao jardim, com cúpula visitável e vista sobre a cidade — o miradouro lá de cima é, para nós, mais interessante do que qualquer um dos pontos altos dentro do próprio jardim, porque abrange a Baixa e o rio ao mesmo tempo. Poucos minutos a nascente fica o Palácio de São Bento, sede da Assembleia da República, com a fachada neoclássica a espreitar por cima dos telhados. Do lado norte, o Cemitério dos Prazeres estende-se por um terreno em socalcos, com mausoléus do século XIX que valem uma visita mais tranquila. E para quem quiser continuar a andar, Campo de Ourique começa logo a seguir, com o seu mercado e as ruas de comércio de bairro a puxar por outro ritmo, mais lento que o do centro turístico.
Onde comer e custos médios
O quiosque junto ao lago principal chama-se Estrela by Olivier, projeto do grupo Banana Café com Olivier da Costa como investidor e impulsionador do conceito. A esplanada, à sombra natural das árvores, tem capacidade para cerca de 150 pessoas e funciona todos os dias, entre as 10h00 e as 20h00. De manhã até ao meio-dia e meia serve-se o menu de pequeno-almoço e brunch, com ovos, tostas e um breakfast plate mais completo; a partir daí entram saladas, pizzas e as chamadas “super sandes”, servidas em focaccia artesanal e feitas para partilhar — ou não, se estiver mesmo esfomeado. Para beber há café, chá, várias versões de matcha, vinho a copo, cocktails e cerveja, e para fechar em doce, um bun roll de limão e mel ou um gelado tipo sundae. É a nossa opção de esplanada preferida em todo o jardim, simplesmente porque é a única com espaço suficiente para não passar a refeição a negociar mesa com desconhecidos. Fora do jardim, a Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, junta várias opções de restaurantes de bairro a preços mais acessíveis, da cozinha japonesa a cafés mais informais.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Há concertos de música ao vivo no coreto do Jardim da Estrela?
Costuma haver, sobretudo em noites de verão, mas depende sempre da programação cultural da zona e, neste momento, também do andamento das obras de restauro.
É preciso pagar para entrar no Jardim da Estrela?
Não. A entrada é livre a qualquer hora do dia — só paga quem quiser sentar-se a comer ou beber algo no quiosque.
O jardim é acessível a carrinhos de bebé e cadeiras de rodas?
Nos caminhos principais, sim, sem grande dificuldade. Já nas zonas mais antigas, perto de certas árvores, o piso fica mais irregular por causa das raízes à superfície.
Onde é que se apanham as melhores fotografias do coreto refletido na água?
Do lado do quiosque, junto ao lago, ao final da tarde — é quando a água costuma estar mais parada e a luz bate de lado.
Informações Práticas
Onde Estacionar
Não há um parque de estacionamento dedicado junto ao jardim. As ruas em redor da Praça da Estrela e de Campo de Ourique estão sujeitas a tarifário EMEL em horário diurno, e os lugares livres escasseiam rapidamente ao fim de semana, sobretudo perto da hora de almoço. Chegar de manhã cedo ajuda; à tarde, contar com alguma sorte ou com uma segunda volta ao quarteirão faz parte do exercício.
Transportes
O acesso mais direto é a pé a partir da estação de Metro do Rato, na Linha Amarela. Os autocarros 709, 713, 720, 738 e 773 servem a zona, e os elétricos 25E e 28E passam mesmo junto à Praça da Estrela — o 28E é, de longe, a forma mais pitoresca de chegar, com direito a subida e descida clássicas da colina.
Dicas Práticas
Leve calçado confortável: perto das árvores mais antigas o piso fica irregular por causa das raízes expostas. Há sombra abundante na maior parte dos caminhos principais, o que ajuda bastante nos dias de mais calor. Para fugir às multidões, vá de manhã em dia de semana — ao fim de semana, sobretudo à tarde, o relvado enche-se de piqueniques e festas de aniversário. Os caminhos centrais são largos e relativamente planos.









