
Palácio e Tapada das Necessidades: Vale a Pena? Como chegar e o que ver
📌 Informações Práticas
Segunda-feira a Domingo: 08:00 – 20:00 (Horário de verão) / 08:00 – 18:00 (Horário de inverno)
Entrámos pelo Portão Sul, no Largo das Necessidades, mesmo em frente à fachada do Palácio. É esta a nossa entrada preferida das duas — a Norte, na Rua do Borja, deixa-nos direto na mata, mas a Sul dá-nos aquele primeiro golpe de vista sobre a grande clareira relvada que faz o jardim valer a pena logo nos primeiros minutos.

Ouvia-se, nesse dia, uma missa a decorrer na capela de Nossa Senhora das Necessidades, que fica encostada ao muro, quase escondida de quem passa depressa demais. A devoção àquela imagem não é recente. Diz a tradição que a capela nasceu de uma promessa de marítimos que atribuíam à Senhora da Saúde a proteção nas travessias para as Índias, e que em 1705 o próprio rei D. Pedro II mandou trazer a imagem até si quando adoeceu gravemente.
Um jardim que começou como cerca de caça
O nome “Tapada” vem daí mesmo — um terreno murado, fechado, onde antigamente se criava caça para a Casa Real. Foi D. João V quem, a partir de 1742, mandou construir ali um convento, uma capela maior e um palácio, entregando o convento à Congregação do Oratório com a promessa de ensino de Teologia e Humanidades. Curiosamente, o próprio D. João V nunca chegou a habitar o palácio que mandou erguer.

Quem se instalou definitivamente ali foi D. Maria II, já em 1836, com o marido D. Fernando II — e foi este último, vindo da Alemanha, quem decidiu transformar o antigo pomar e horta dos frades num jardim paisagista ao estilo inglês, projeto que confiou ao mestre jardineiro Jean Bonnard por volta de 1841.
Dos reis à estufa de cactos
Depois de D. Fernando II vieram outros monarcas que foram deixando marca no espaço: D. Pedro V, D. Carlos e, por fim, D. Manuel II, o último rei de Portugal a viver ali. Foi D. Pedro V quem, entre 1855 e 1861, mandou erguer a estufa circular — hoje, sem dúvida, o destaque específico mais fotografado da Tapada, com o seu jardim de cactos lá dentro. Vale bem a pena entrar.

A cúpula, isso sim, já viu melhores dias: tem vários vidros partidos e dá para ver o céu por entre eles, o que lhe retira algum do brilho original, mas mesmo assim continua a ser um edifício impressionante, sobretudo por dentro, onde as plantas exóticas crescem à vontade há décadas.

A rainha que pintava no jardim
Mais tarde, já no reinado de D. Carlos, construíram-se campos de ténis e um pavilhão a que chamaram Casa do Regalo — o famoso Pavilhão da Rainha D. Amélia. Foi ali que a rainha instalou o seu atelier de pintura, por volta de 1889.

Não é um museu, não tem horário de visita regular, e a maior parte dos visitantes passa por ele sem saber o que aquelas paredes já viram. Fica perto de um dos lagos, o que ajuda a explicar por que razão a rainha escolheu justamente aquele canto para trabalhar. A luz ali é boa.
A noite em que o palácio foi bombardeado
A 4 de outubro de 1910, o cruzador Adamastor, ancorado no Tejo, disparou contra o Palácio das Necessidades, então residência oficial de D. Manuel II. Os projéteis causaram danos no edifício e um deles chegou aos aposentos privados do rei, no primeiro andar — ele, por sorte, estava refugiado noutra zona do palácio. No dia seguinte, D. Manuel II embarcou rumo ao exílio, primeiro em Gibraltar, depois em Inglaterra. Nunca mais voltou a Portugal.
Com a Implantação da República proclamada nessa madrugada, o palácio ficou praticamente esquecido durante décadas.
De residência real a ministério
Só por volta de 1950 o edifício voltou a ganhar função: passou a acolher o Ministério dos Negócios Estrangeiros, que ali se mantém até hoje, com remodelações conduzidas pelo arquiteto Raúl Lino que respeitaram os traços do século XVIII.

Da vez que lá fomos, não havia qualquer visita disponível ao interior — o Palácio estava, como é normal, fechado ao público, e limitámo-nos a contornar o edifício por fora. Ainda assim, conseguimos ver a paisagem para o rio a partir do jardim, com a Ponte 25 de Abril a espreitar por cima das árvores, o que já compensa bastante a curiosidade de não entrar.
Lagos, ruínas e um certo abandono
Há três lagos na Tapada — o da Palmeira, o das Estrelícias e o do Duque de Lafões —, rodeados de vegetação e estatuária, entre a qual se destaca a série das Virtudes e um busto de D. João V. Na altura em que lá estivemos, alguns dos lagos estavam sem água, provavelmente por causa do calor de verão, e isso dava-lhes um ar mais de ruína do que de lago propriamente dito.

Reparámos também noutras estruturas espalhadas pelo jardim — pequenos casarões, muros baixos — que pareciam simplesmente abandonadas, sem qualquer indicação do que tinham sido. Achámos aquilo tudo bonito, esta mistura de grandeza antiga e negligência recente — ou se calhar era só o calor da tarde a fazer-nos ver romantismo onde havia apenas falta de manutenção. Para quem gosta de fotografia urbana, é precisamente esta combinação de água parada, pedra gasta e luz a passar por entre ramos que torna os lagos e as ruínas do jardim um dos cantos mais interessantes de percorrer com máquina em punho.
Piqueniques debaixo de árvores centenárias
A grande clareira relvada, logo a seguir ao Portão Sul, é hoje um dos locais mais procurados de Lisboa para levar toalha e cesto. Da vez que passámos por lá, era um domingo de calor e o relvado estava cheio — famílias inteiras instaladas com toalhas, crianças a correr, grupos de amigos sentados em círculo, sem qualquer churrasco ou fogueira à vista.

Aquele mesmo espaço já recebeu, noutras ocasiões, eventos de música ao ar livre como o Outjazz. Leve água, leve sombra própria se puder, e reserve tempo para simplesmente ficar sentado — é esse, no fundo, o propósito de um lugar que se chama Necessidades e continua a resolver a mais simples de todas: a de parar.
O que fica perto
A cerca de dez minutos a pé, junto ao rio, fica o Museu do Oriente, instalado num antigo armazém frigorífico em Alcântara. Subindo em direção a Campo de Ourique, a Basílica da Estrela e o respetivo jardim oferecem outro tipo de sossego, mais central e mais frequentado por lisboetas do dia a dia do que por turistas. Para quem gosta de arte antiga, o Museu Nacional de Arte Antiga fica também a uma curta caminhada, do lado da Lapa. E se sobrar tempo à tarde, o LX Factory — com as suas lojas e restaurantes instalados numa antiga fábrica têxtil — está mesmo ali ao virar de Alcântara, já perto do rio.
Onde comer e custos médios
Não conte encontrar nenhum café mesmo à porta do jardim — não encontrámos nenhum aberto junto ao Portão Sul, o que nos obrigou a caminhar até Alcântara para comer qualquer coisa depois do passeio.
Vale a pena descer até lá: a zona tem desde tasquinhas tradicionais de peixe grelhado, com pratos a rondar os 12€ a 18€, até espaços mais informais dentro do LX Factory, onde se come por menos de 10€ num café ou numa fatia de pizza. Quem preferir subir até Campo de Ourique encontra o mercado local, com bancas de comida variada e preços semelhantes aos de Alcântara, mais um ambiente de bairro que costuma agradar a quem já visitou o centro turístico da cidade várias vezes.
Perguntas Frequentes
Posso visitar o interior do Palácio das Necessidades, ou só os jardins?
Só os jardins e a Tapada têm acesso regular. O Palácio é hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros e só abre pontualmente ao público, por exemplo em iniciativas como as Jornadas Europeias do Património.
Os cães são bem-vindos na Tapada das Necessidades?
De um modo geral sim, com trela, como acontece na maioria dos jardins municipais de Lisboa. Em dias de eventos organizados no relvado, essa tolerância pode não se aplicar — por segurança, o melhor é observar a sinalética à entrada nesses dias.
Como está classificada a Tapada das Necessidades?
É Imóvel de Interesse Público desde 1983. Não é algo que se note em placas ou restrições — nota-se mais no estado desigual de conservação de certas zonas do jardim do que em qualquer regra escrita.
Qual a melhor altura do dia para fotografar os lagos e as estruturas mais antigas?
De manhã. A luz entra lateralmente por entre a vegetação e o jardim ainda está mais vazio, o que facilita bastante enquadrar as ruínas sem gente a cruzar o plano.
Informações Práticas
Onde Estacionar
Não há parque coberto com nome próprio mesmo junto ao Largo das Necessidades. Da vez que lá fomos, tivemos de estacionar bem mais longe do que esperávamos, porque as ruas em redor do Portão Sul estão ocupadas por lugares tarifados de rua. A melhor aposta é chegar de transporte público ou contar com uma caminhada a partir de uma zona de estacionamento mais afastada, sobretudo ao fim de semana.
Transportes
Os autocarros 773 e 67B param mesmo junto ao Largo das Necessidades; as linhas 713 e 720 também servem a zona. De comboio, a Linha de Cascais e a Linha da Azambuja param em Alcântara-Terra, a cerca de 8 minutos a pé do Portão Sul. Não há estação de metro nas imediações imediatas.
Dicas Práticas
O piso da Tapada é maioritariamente de terra batida, com zonas em subida íngreme perto da mata — leve calçado com boa aderência. Junto às entradas e no relvado principal o percurso é mais plano e acessível a carrinhos de bebé; mais para dentro, entre árvores e junto aos lagos, o caminho estreita e o piso fica irregular, o que dificulta cadeiras de rodas. As primeiras horas da manhã, sobretudo em dias de semana, são as de menor fluxo.









