
Rua de São José: A Igreja, o comércio perto da Avenida da Liberdade
📌 Informações Práticas
Sempre aberto (Espaço público)
A paralela discreta da Avenida da Liberdade
A Rua de São José corre paralela à Avenida da Liberdade, a mais cara de Lisboa, e a diferença sente-se logo à primeira esquina: menos árvores, menos vitrinas de marca, portas mais estreitas e uma calçada que parece mais velha. Fomos lá numa manhã de semana, com o sol ainda baixo, e quase não cruzámos ninguém.
Antiquários, muitos, alguns ainda de portas fechadas quando passámos.

O comércio tradicional foi-se reduzindo, pouco a pouco, a mercearias onde quase ninguém entra. A renovação imobiliária vai-se sentindo por todo o lado, e a rua caminha para o território do luxo, o que não surpreende com a avenida mais cara da cidade logo ao lado.
A meio da rua há um atalho curioso. Entra-se pelo Aldi. Sai-se nas Galerias Tivoli, onde estão algumas das lojas de luxo de Lisboa — passa-se dos pacotes de cereais às montras de marca sem sair do edifício.
Muitos cafés da rua têm o balcão virado para o passeio. Peça o café à janela, sem entrar, e beba-o em pé a olhar para as fachadas.
Quando a Rua de São José ainda era hortas
No século XVI isto nem era rua no sentido que hoje lhe damos. A zona ficava fora do miolo denso da cidade, entre hortas, e daí vem o nome da antiga freguesia, São José Entre as Hortas. Quem quiser imaginar a paisagem agrícola desta encosta tem de a desenhar de cabeça, porque desapareceu por baixo da malha urbana. O nome ficou.
O ponto de partida do bairro foi uma ermida dedicada a São José. Instalou-se ali, em meados de Quinhentos, a confraria dos carpinteiros e pedreiros, gente que construía a cidade e que tinha regimento escrito desde o início do século XVI. A ermida passou a igreja, a igreja a sede de freguesia, e a rua que a servia aparece em documentos antigos como Rua Direita de São José.
Veio o terramoto de 1755. A igreja foi em parte reconstruída. O Palácio das Pedrosas, de 1764, já nasce depois do abalo, o que ajuda a perceber que boa parte do que se vê na rua é Lisboa refeita e não Lisboa original.
Quase tudo é setecentista ou oitocentista.
Igreja de São José dos Carpinteiros, a referência da rua
Se tivéssemos de escolher uma única referência histórica da Rua de São José, seria a Igreja de São José dos Carpinteiros. Começou como capela da confraria, passou a sede de paróquia ainda no século XVI, cresceu no século XVII e foi em parte reconstruída depois de 1755. É tratada como conjunto patrimonial com os prédios anexos, entre os números 64 e 100.

Pare à porta e olhe para cima. Por cima do portal está um medalhão com o baixo-relevo do santo, ladeado por símbolos dos ofícios da confraria. Ao fim da tarde a luz bate de lado na fachada e o relevo aparece melhor do que de manhã.
Dentro, os azulejos são do século XVIII. Forram as paredes até meia altura, e por cima, no teto da nave, há uma pintura oitocentista de São José e o Anjo. O retábulo da capela-mor é de mármore. Achámos o interior mais pequeno do que a fachada prometia — ou talvez fosse só o contraste com a rua estreita lá fora.
A reabilitação do conjunto, da autoria do atelier RA Rebelo de Andrade, venceu o Prémio Gulbenkian Património.
Casa dos 24: os ofícios de Lisboa nas traseiras da igreja
A Casa dos Vinte e Quatro reunia dois representantes de cada ofício da cidade, e a ideia de dar voz aos artífices no governo de Lisboa é atribuída ao Mestre de Avis, o futuro D. João I. A origem do órgão recua aos finais do século XIV. Reunia-se na Igreja de São Domingos, junto ao Rossio, e depois do terramoto de 1755 mudou-se para esta casa, onde ficou até ser extinto, em 1834, com o regime liberal.
A entrada é pela Rua da Fé.
O número é o 53, e entre pela rua, não pela igreja. O pórtico tem uma representação heráldica da irmandade e dos ofícios da sua bandeira, rara, e há pedra e azulejo por todo o lado. Dê-se tempo para olhar para o pórtico antes de subir.
A obra de recuperação decorreu entre 2016 e 2020. O júri do Prémio Gulbenkian destacou ainda uma exposição em memória de Gonçalo Ribeiro Telles, que vivia no bairro.
Palácio das Pedrosas e Palácio Lavra, lado a lado
O Lavra fica no número 10. É um palácio do século XVII que dá nome ao funicular ali ao lado, e logo a seguir, entre os números 12 e 20, está o Palácio das Pedrosas. Fazem parte de um conjunto de edifícios autónomos que se estende pela rua até ao Elevador do Lavra.

O Pedrosas foi construído em 1764 para Tomás Mongiardino, comerciante italiano que ali vivia e fazia pão (sim, havia uma padaria dentro do palácio), em terrenos aforados por Joaquim Miguel Lopes de Lavre, o dono do palácio vizinho. Nos primeiros anos de Oitocentos foi arrendado a altos funcionários do Estado, à Embaixada de Espanha e à Intendência Geral da Polícia. Em 1831 foi comprado em hasta pública pelo desembargador José António Silva Pedrosa, e é dele o nome que ficou.
Mais tarde serviu de escola e, já no início do século XX, de sede da Administração Geral dos CTT.
A fachada mais extensa, a poente, tem um embasamento de cantaria com três portas e quatro janelas de peito gradeadas, um primeiro andar com doze janelas de sacada guarnecidas de ferro fundido e um segundo andar com doze janelas de peito. Remata em platibanda de balaústres e plintos.
O que se vê agora são obras. Os dois palácios vão ser transformados num hotel de 114 quartos, o projeto anunciado pela Six Senses, e quando passámos ouviam-se máquinas por trás dos tapumes. Não sabemos dizer em que fase está agora a obra.
Antiquários, cafés de balcão e mercearias sem clientes
Sente-se a reabilitação urbana em cada fachada recuperada. Mais uma rua de Lisboa onde o investimento imobiliário transforma prédios velhos em apartamentos, alojamento local e hotéis de gama alta, com a vizinhança da Avenida da Liberdade a dar velocidade ao processo. Quem procura hotéis perto da Rua de São José tem o Avenida Palace nos Restauradores e, em breve, o projeto nos dois palácios.

Parecia-nos uma rua em decadência, ou talvez fosse só a hora, com os antiquários ainda a abrir.
Os antiquários resistem, entre candeeiros, cómodas e porcelanas. Se gosta de antiguidades, entre sem pressa e pergunte pelas peças que não estão na montra. As mercearias têm pouca clientela, e há quem nunca as tenha visto cheias.

Um cão dormia ao sol à porta de uma delas, e nada tem a ver com o resto.
Do Largo da Anunciada ao Jardim do Torel
No Largo da Anunciada, ao lado do Palácio Lavra, parte o Elevador do Lavra, o funicular mais antigo de Lisboa, inaugurado em abril de 1884. Percorre 188 metros até à Rua Câmara Pestana, junto ao Jardim do Torel, e foi classificado como monumento nacional em 2002.
Quando lá fomos estava parado. A Carris tem-no listado como fora de serviço, e nós, que tínhamos vindo de propósito, ficámos a olhar para os carris. Subimos a pé. A calçada do Lavra sobe a direito, de piso irregular e pedra gasta; leve fôlego.
No topo, o Jardim do Torel é pequeno, tem um café e um miradouro virado para a Avenida da Liberdade. É o nosso miradouro preferido desta zona, à frente do de São Pedro de Alcântara, no Bairro Alto, porque tem muito menos gente (quase sem fila, o que em Lisboa já é raro).
A uns passos, o Campo dos Mártires da Pátria é um parque para uma pausa. Foi ali que tropeçámos num desnível do passeio, sem consequências.
Restauradores, Avenida e o que fica num raio de 5 km
A Rua de São José fica a poucos passos da Praça dos Restauradores. A praça tem um obelisco que assinala a Restauração da independência, em 1640, e o Palácio Foz ocupa um dos lados. Dali parte o Elevador da Glória até ao Bairro Alto, outro miradouro, mais concorrido do que o Torel.
Na Rua das Portas de Santo Antão estão o Coliseu dos Recreios e o Teatro Politeama, duas salas de espetáculo grandes, de fachadas imponentes. O Politeama fica na mesma rua.
A uns dez minutos a pé, no Rossio, está a estação de comboios, e a partir dali chega-se depressa ao Largo do Carmo. O Convento do Carmo mantém a nave sem teto desde 1755 e funciona como museu arqueológico. Noutra direção, a Igreja de São Roque, jesuítica, guarda a capela de São João Baptista, das mais ricas da cidade.
Se alargar o raio aos 5 km, entram o Castelo de São Jorge, Alfama e o Parque Eduardo VII, no topo da Avenida.
O Parque Eduardo VII fica depois da rotunda do Marquês de Pombal.
Um passeio na Rua de São José
Comece cedo, saia no metro de Restauradores e entre pela Rua de São José: os palácios Lavra e Pedrosas primeiro, ainda com a rua vazia. Siga pelos antiquários até ao Aldi e atravesse-o para espreitar as Galerias Tivoli (ou ignore, se as lojas de luxo não são o seu género). Mais acima, a Igreja de São José dos Carpinteiros e, nas traseiras, a Casa dos 24, pela Rua da Fé.

Almoce na Rua das Portas de Santo Antão.
Depois do almoço, o Elevador do Lavra se estiver a funcionar, ou a calçada se não estiver, e o Torel para o café. O dia sai quase de graça: a rua, as fachadas e o jardim não se pagam, e o gasto fica no café ao balcão, no almoço e no bilhete do funicular. Desça pela Avenida da Liberdade até aos Restauradores, onde o dia acaba no Coliseu ou no Politeama, se houver espetáculo.
Onde comer
Na própria Rua de São José, a oferta mais constante são os cafés com balcão para o passeio. Servem para um café e um pastel em pé. Para se sentar, vá até à Rua das Portas de Santo Antão. Os preços são de zona nobre, e ao balcão paga-se menos do que à mesa.
A Casa do Alentejo fica no número 58, num palácio com pátio de inspiração mourisca, e é a nossa escolha para uma refeição com sítio para ver: a carne de porco à alentejana é o prato óbvio, e a sala vale a visita por si só.
O Solar dos Presuntos, no número 150 da mesma rua, serve cozinha minhota e tem o presunto que lhe dá o nome. Não ficámos a saber como se compara à Casa do Alentejo ao jantar, porque só lá fomos ao almoço.
Compre a merenda no Aldi e leve-a para o Torel.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual é o código postal da Rua de São José, em Lisboa?
Os quatro primeiros algarismos são 1150. Os três finais mudam de porta para porta, e o código do número exato encontra-se na pesquisa de códigos postais dos CTT.
Quanto tempo é preciso para ver a rua com calma?
Uma hora chega para a rua e as fachadas. Com o Torel e a Casa dos 24 já é uma manhã inteira, e sobra pouco para almoçar sem pressa.
Há alguma altura do dia em que a rua esteja mais calma?
Cedo, de manhã. Mais tarde começa o vaivém entre a Avenida e os Restauradores.
Dá para entrar no Palácio das Pedrosas?
Não. O edifício está a ser convertido em hotel e a porta que se vê da rua não é de visitas.
Informações Práticas
Onde Estacionar
À superfície, a zona está sob estacionamento pago e os lugares são poucos. As garagens subterrâneas mais próximas ficam na Praça dos Restauradores e na Praça da Alegria. Paga-se por tempo de permanência. O pico é ao fim da manhã e à hora de almoço, quando a Avenida da Liberdade enche. Se vier de carro, deixe-o numa garagem e suba a pé.
Transportes
Restauradores é a estação de metro mais próxima, na Linha Azul. A estação Avenida, também Azul, fica na Avenida da Liberdade, e Rossio, na Linha Verde, a uma curta caminhada. O comboio para Sintra parte da Estação do Rossio. Há autocarros da Carris pela Avenida da Liberdade, e o Elevador do Lavra liga o Largo da Anunciada ao Torel.
Dicas Práticas
Os passeios são estreitos. O piso é de calçada portuguesa, polida e irregular, sobretudo na subida do Lavra. A sombra fica na Avenida, não na rua. A Rua de São José tem declive, e o Torel obriga a subida íngreme se o funicular estiver parado. De manhã cedo a rua está mais vazia, e a Casa dos 24 entra-se pela Rua da Fé.









