
Igreja do Santo Contestável: As Relíquias, a cruz e os vitrais de Almada Negreiros
📌 Informações Práticas
Segunda a Sexta-feira: 09:00 – 18:30
Sábado: 09:00 – 12:30 / 18:00 – 20:00
Domingo: 09:30 – 12:00 / 18:00 – 20:00
Entre o mercado e os jardins, chegar à igreja
Chega-se à Igreja do Santo Condestável quase sem perceber que se chegou. A rua estreita-se, o mercado fica de um lado, e de repente há um largo com jardins e a fachada branca mesmo à frente.

Não há sinalização grande. Ao fim da tarde este espaço enche-se de crianças a correr entre os canteiros — e de donos de cães a aproveitar a área ampla para uma volta antes do jantar. Reparámos nisso mais do que uma vez, sempre por volta da mesma hora, a caminho do mercado.
Cinco anos de obra, um arquiteto e um bairro em construção
O projeto é de Vasco Regaleira, arquiteto português que desenhou a igreja em pleno movimento das chamadas «Novas Igrejas» — uma tentativa modernista de conciliar as proporções do século XX com o revivalismo dos estilos antigos. As obras arrancaram em 1946 e só terminaram em 1951, ano da inauguração, a 14 de agosto. Parece medieval, mas nasceu no século XX, erguida num terreno que fazia parte do processo de urbanização de Campo de Ourique, então ainda a ganhar forma como bairro residencial. A paróquia juntou-se à de Santa Isabel em 2012, quando nasceu oficialmente a freguesia de Campo de Ourique tal como hoje existe. (O nome do arquiteto confunde-se por vezes com o da Quinta da Regaleira, em Sintra — mas não têm ligação nenhuma um com o outro.)
O Condestável que dá nome ao bairro
Nuno Álvares Pereira nasceu em 1360 e entrou cedo na corte de D. Fernando, ainda rapaz, como cavaleiro. Aos vinte e quatro anos comandou as tropas portuguesas na batalha de Aljubarrota. Portugal manteve a independência. O feito valeu-lhe, em 1385, o título de Condestável do Reino. Não admira que uma espada apareça esculpida na fachada: foi com ela, mais do que com orações, que o Condestável ganhou o lugar que hoje tem dentro desta igreja. Mais tarde entraria para a vida religiosa como frade carmelita, viria a ser beatificado e depois canonizado — é por isso que também se lhe chama São Nuno de Santa Maria, nome que aparece a par do de Condestável em quase toda a documentação paroquial.
Do Carmo para Campo de Ourique: a viagem das relíquias
As relíquias do Condestável estiveram primeiro no Convento do Carmo, em Lisboa, onde ele próprio se recolhera depois de largar as armas. O terramoto de 1755 destruiu parcialmente o convento. O convento nunca foi reconstruído. As ruínas continuam visíveis ainda hoje, a céu aberto, no Chiado. Foi só com a construção da Igreja do Santo Condestável que os restos mortais encontraram um destino definitivo: a 14 de agosto de 1951, coincidindo com a inauguração, celebravam-se também 566 anos sobre a nomeação de Nuno Álvares Pereira como Condestável.

O túmulo relicário, sob o altar-mor, é da autoria do escultor Domingos Soares Branco e foi executado em 1953, já depois da inauguração da igreja.
A fachada, o brasão e a porta de Leopoldo de Almeida
A fachada é simples, quase austera — duas torres ladeiam o pórtico, e por cima fica o brasão de armas reais da segunda dinastia, esculpido em relevo. A pedra é clara. Achámos a fachada séria à primeira vista, quase fria; ou se calhar era só a luz baixa daquele fim de tarde a fazê-la parecer mais solene do que é.

A porta principal é obra do escultor Leopoldo de Almeida: ao centro, São Nuno ladeado por anjos; dos lados, Nossa Senhora do Carmo, à esquerda, e São Jorge, à direita. Tropeçámos no degrau de entrada lateral, mais alto do que parece à distância — vale olhar onde se pisa.
Vitrais de Almada Negreiros e o fresco da capela-mor
No interior, os vitrais são impressionantes — impressionam mesmo quem entra só de passagem, sem qualquer intenção religiosa. A luz muda tudo. São de Almada Negreiros e cobrem os altares laterais: de um lado, a Anunciação e o Coração de Maria; do outro, o Coração de Jesus e o Bom Pastor.

Na capela-mor, um fresco de Portela Júnior representa a glorificação de Nuno Álvares Pereira, com cores que contrastam com a sobriedade da pedra em redor. É a parte da igreja que mais demora a ver com calma — vale entrar sem pressa, mesmo que seja só para os vitrais.

Os jardins, os cães e a cruz a contraluz
À volta da igreja há vários jardins, cada um com o seu recorte de bancos e árvores. Há bancos de sobra. O que fica virado a poente é o nosso preferido — é onde o contraluz do fim de tarde recorta a cruz do topo da fachada, dando-lhe um relevo que não se vê a outras horas do dia. Não sabemos se este efeito se repete todos os dias com a mesma intensidade, mas nas vezes em que passámos por ali ao final da tarde foi sempre assim. É também aqui que se cruzam mais cães e donos, sentados nos bancos enquanto os animais correm à solta pela relva.
Nos arredores, dentro de um raio curto: Estrela, Prazeres e Amoreiras
A cerca de quinze minutos a pé fica a Basílica da Estrela, com o jardim em frente onde vale sentar-se um bocado à sombra das árvores grandes. Mais perto ainda, quase encostado à igreja, está o Cemitério dos Prazeres, um dos mais antigos e maiores da cidade, com jazigos que parecem pequenas capelas — dá para uma caminhada tranquila entre os ciprestes. A entrada é gratuita. Para quem prefere uma paisagem mais vertical, as Torres das Amoreiras ficam também a curta distância, visíveis já do largo da igreja em dias de céu limpo. O Palácio de São Bento, sede da Assembleia da República, fecha o triângulo de destinos possíveis a partir daqui.
Onde comer e custos médios
O Mercado de Campo de Ourique fica mesmo ao lado da igreja e resolve a fome antes ou depois da missa sem grandes voltas. Cheira sempre a peixe grelhado. É um mercado com bancas de comida variada, da grelha às sandes mais simples, e funciona como ponto de encontro tanto para quem vive no bairro como para quem só está de passagem.
Não retivemos o nome da tasca onde comemos da última vez — ficava numa das ruas laterais, perto do mercado, e tinha uma esplanada pequena, quase escondida. Isso resume bem Campo de Ourique: há sempre um sítio bom que não se planeia encontrar.
Os preços variam de banca para banca dentro do mercado, sem grandes sustos para a carteira. Um café e um pastel de nata na pastelaria mais próxima do largo custam o preço habitual em Lisboa, nada que fuja à norma da cidade.
Perguntas Frequentes
A Igreja do Santo Condestável cobra entrada?
Não. A entrada é livre, tal como acontece na generalidade das igrejas paroquiais de Lisboa.
Vale a pena visitar mesmo sem ser praticante?
Vale, nem que seja pelos vitrais e pelo túmulo do Condestável, que se vê bem mesmo fora das celebrações — encontrámos a porta aberta num fim de tarde de semana, sem missa nenhuma a decorrer. E o mercado ali ao lado resolve logo a fome, praticante ou não.
Quanto tempo é preciso reservar para a visita?
Para a igreja em si, uns vinte a trinta minutos chegam. Juntando o passeio pelos jardins e uma passagem pelo mercado, o roteiro estica-se facilmente para uma hora, talvez hora e meia.
Costuma haver missa a meio da semana?
Sim, além das celebrações de domingo, há normalmente missa a meio da manhã em dias úteis, por volta das nove e meia, segundo o que encontrámos da última vez que passámos por lá num dia de semana.
Informações Práticas
Onde Estacionar
Estacionamento é sobretudo na rua, dentro da zona paga da EMEL que cobre grande parte de Campo de Ourique — gratuito aos domingos, feriados e durante a noite, como em todo o resto de Lisboa. Não há um parque subterrâneo próprio junto à igreja; os lugares mais próximos enchem-se cedo aos fins de semana, por causa do mercado ali ao lado. Vale contar com alguns minutos extra para encontrar lugar, sobretudo ao domingo de manhã.
Transportes
O elétrico 28 tem um dos extremos da carreira mesmo ali perto, em Campo de Ourique/Prazeres, e é a forma mais pitoresca de chegar. Várias carreiras de autocarro da Carris servem a zona a partir do Rato, de Alcântara e da Estrela. Não há estação de comboio em Campo de Ourique. A pé, a igreja fica a cerca de quinze a vinte minutos da Basílica da Estrela, um passeio tranquilo e maioritariamente plano.
Dicas Práticas
O piso à volta da igreja é irregular em alguns troços dos jardins, com raízes a levantar a calçada aqui e ali — reparámos nisso ao passear depois da chuva. O degrau da entrada lateral é mais alto do que parece; preste atenção ao subir. Há bastante sombra nas árvores dos jardins, útil nos dias mais quentes, mas a fachada principal apanha sol direto a meio da tarde. Para fugir às visitas em grupo, o meio da manhã em dia de semana costuma ser a hora mais calma.









