
Campo de Santa Clara: a Feira da Ladra e arredores
📌 Informações Práticas
Aberto 24 horas (espaço público; as feiras e comércio local operam em horários específicos, nomeadamente às terças-feiras e sábados)
Num dia sem feira, o Campo de Santa Clara é uma praça tranquila com ruas encostadas e um jardim virado ao rio. À terça e ao sábado fica irreconhecível. Quem pergunta onde fica a Feira da Ladra encontra-a aqui, atrás do Mosteiro de São Vicente de Fora e debaixo da cúpula do Panteão Nacional. Este roteiro de um dia junta feira, monumentos, miradouro e almoço, com os custos e o estacionamento à vista.
Uma praça que muda de cara duas vezes por semana
Passámos pelo Campo de Santa Clara pela primeira vez numa quarta-feira, a meio de uma subida desde Santa Apolónia, e achámos que tínhamos vindo ao sítio errado. Lugares vagos, ruas laterais sossegadas, um quiosque a abrir. Voltámos ao sábado seguinte e a mesma praça tinha bancas até ao fim do passeio.

O jardim chama-se Botto Machado e funciona como miradouro de Santa Clara, com entrada livre a qualquer hora, quiosque e vista larga sobre o Tejo (uma bica ali, antes de começar a regatear, sabe melhor do que parece). O jardim tem parque para cães.

As ruas à volta ficam à mercê da feira nos dias de mercado. Dê meia hora ao jardim antes de entrar nos monumentos.
Do Campo da Forca ao nome de Santa Clara
A colina liga-se à conquista de Lisboa em 1147, quando a primeira igreja dedicada a São Vicente foi erguida fora das muralhas. Durante séculos o campo teve pouca gente a viver nele, e por isso serviu de lugar de execuções. Chegou a chamar-se Campo da Forca.
Os reis olharam para o sítio com outros olhos. D. Manuel I quis ali paços e uma igreja paroquial, e a infanta D. Maria, sua filha, mandou começar em meados do século XVI a Igreja de Santa Engrácia, que acabaria por ser o Panteão Nacional.
Em 1288, já no reinado de D. Dinis, o Mosteiro de Santa Clara ocupou a parte oriental do campo.
Feira da Ladra: terça e sábado, mais de sete séculos de regateio
A feira diz-se de 1272, quando se montava junto ao Castelo de São Jorge, e andou por vários largos de Lisboa até assentar no Campo de Santa Clara em 1882. O sábado juntou-se à terça no início do século XX. Hoje abre pelas nove da manhã e vai desmontando a meio da tarde, e entra-se sem pagar.
O nome tem mais explicações do que a feira tem bancas numa terça de chuva.
Os colecionadores procuram moedas, selos e armas antigas. Nas bancas vizinhas passam discos de vinil, roupa vintage, bibelôs e eletrodomésticos que já viram melhores dias. Num sábado, reparámos num sapato esquerdo, sozinho, com o preço escrito a marcador na sola. Nunca soubemos onde estava o direito.
Se não fala português, a calculadora do telemóvel resolve quase tudo: escreva o seu número, mostre, sorria. Quem vende contrapõe e a conversa fica por aí.
Chegue às nove em ponto. Quem procura peças de colecionismo antes dos revendedores tem de estar lá quando as bancas ainda se montam.

Com azulejos e arte sacra, desconfiámos sempre do que parecia perfeito demais. O vidrado antigo tem falhas, o barro tem irregularidades, e uma banca que jura ter dez azulejos iguais não tem nenhum antigo.
Panteão Nacional: a igreja que levou séculos a acabar
O Panteão Nacional ocupa a antiga Igreja de Santa Engrácia. As obras arrastaram-se tanto que deram origem à expressão “obras de Santa Engrácia”, usada para tudo o que nunca mais acaba. Só nos anos 60 do século XX a cúpula ganhou a forma atual, por mão do engenheiro Edgar Cardoso, e em 1966 o edifício foi inaugurado como Panteão.
Por dentro, domina o mármore colorido numa planta centrada. Há túmulos de escritores e de presidentes da República, o cenotáfio de Nuno Álvares Pereira e, entre os mais procurados, os de Amália Rodrigues e de Eusébio.
O bilhete normal custa 10 € e abre-se de terça a domingo, das 10h às 17h ou 18h, conforme a época. Fecha à segunda.
Suba ao terraço que circunda a base da cúpula. Preferimo-lo ao jardim Botto Machado e ao próprio terraço de São Vicente, porque dá a volta completa e põe o Tejo, os telhados de Alfama e as torres de São Vicente no mesmo olhar.
Conta a tradição oral que a praga sobre a obra veio de Simão Pires, um jovem que visitava o convento vizinho de Santa Clara para ver a noviça Violante. Foi acusado do roubo de relíquias da igreja e, condenado, terá jurado que a obra nunca se acabaria.
São Vicente de Fora, o vizinho dos azulejos
Do Panteão a São Vicente de Fora são dois minutos a pé. O nome explica-se pela posição: a primeira igreja dedicada ao padroeiro de Lisboa ficava fora das muralhas medievais. Do templo românico não resta quase nada. O edifício atual vem da reconstrução ordenada por Filipe II de Espanha, no final do século XVI, com uma fachada de linhas sóbrias e duas torres que se avistam de metade de Alfama.
Dentro, a igreja é forrada a cantaria e mármore, com as capelas do Santíssimo e de Nossa Senhora do Pilar entre as mais antigas, e um órgão barroco que se destaca. No mosteiro, os claustros estão revestidos de azulejos barrocos, incluindo uma série com as fábulas de La Fontaine, e o Panteão Real da dinastia de Bragança guarda os últimos reis de Portugal.
Há ainda uma cisterna medieval e os terraços sobre o Tejo. O horário vai das 10h às 18h.
Perdemos a conta aos degraus da escadaria de entrada (uns doze, ou vinte).
Mercado de Santa Clara e os alfarrabistas das laterais
O Mercado de Santa Clara foi inaugurado em outubro de 1877, com projeto do arquiteto Emiliano Augusto de Bettencourt. Foi dos primeiros edifícios cobertos para venda de alimentos feitos em ferro e vidro. É o último exemplar da arquitetura do ferro que Lisboa conserva dessa época.
Achámos o edifício mais pequeno do que esperávamos, ou talvez fosse só a cúpula do Panteão ao lado a roubar-lhe a escala.
No centro há hoje um espaço dedicado às artes culinárias. Nas laterais vivem alfarrabistas, lojas de antiguidades e artesãos, e é ali que vale a pena voltar fora de terça e sábado. Numa visita a meio da semana, duas portas estavam fechadas sem aviso. Não sabemos se é sempre assim.

Alguns restaurantes das laterais servem os turistas que param para um cafezinho entre caminhadas.
Quartéis, fardas e o Casão Militar
Durante muitos anos o Campo de Santa Clara foi um dos principais centros militares de Lisboa. Passavam por aqui os que embarcavam para o Ultramar, e as ruas vizinhas tinham lojas de equipamento militar, com trajes que se podiam comprar novos ou em segunda mão.
Ainda hoje o Casão Militar de Santa Clara funciona no Palácio dos Condes de Resende, num edifício que se identifica pela fachada e pelo movimento de farda à porta. Das lojas antigas ficou a memória, e nas bancas da feira aparece de vez em quando o que sobrou delas.
O portão do palácio estava fechado quando lá passámos.
Roteiro a pé: do Campo aos miradouros de Alfama
Saindo do Campo de Santa Clara, a descida para Alfama é curta. O Miradouro de Santa Luzia é o que mais recomendamos: tem uma pérgola coberta de flores e painéis de azulejos, e a vista cai direta sobre os telhados e o rio. Em Portas do Sol, ao lado, a vista é igual mas a confusão é maior, e preferimos Santa Luzia por isso.
Mais abaixo ficam a Sé de Lisboa e, noutra direção, o Castelo de São Jorge. Para o lado norte da colina, a Igreja e o Miradouro da Graça e, mais acima, o Miradouro da Senhora do Monte.
Junto à estação de Santa Apolónia está o Museu Militar de Lisboa, que fecha bem o fio militar do Campo. A pouco mais de dois quilómetros, no antigo Convento da Madre de Deus, fica o Museu Nacional do Azulejo.
Onde comer e quanto custa o dia
O nosso almoço de eleição é o Santa Clara dos Cogumelos, no piso superior do Mercado de Santa Clara, na morada Campo de Santa Clara – Mercado de Santa Clara, 7.1, Lisboa (telefone +351 913 043 302). A cozinha é portuguesa e os cogumelos têm o papel principal. Peça o que levar cogumelos e deixe o resto da carta para outro dia.
Para o café do meio da manhã, escolhemos o quiosque do jardim Botto Machado. Tem vista sobre o Tejo, e nunca esperámos mais de uns minutos pela bica. As esplanadas das laterais do mercado servem os turistas, e preferimos subir ao piso superior.
Na parte das contas: a entrada na feira é gratuita, o jardim também, e o Panteão custa 10 €. Some o bilhete do mosteiro de São Vicente e um almoço, e o dia fica pelas despesas de um passeio normal em Lisboa.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Posso regatear os preços na Feira da Ladra?
Pode, e quem vende já conta com isso. Ofereça menos do que pedem, sem pressa, e esteja preparado para se afastar da banca: é comum chamarem de volta.
As bancas aceitam cartão?
Poucas. Leve notas pequenas e moedas, porque a maior parte das bancas de rua vive de dinheiro vivo.
Quanto tempo devo reservar para o roteiro completo?
Meio dia chega para a feira e um monumento. Para os dois monumentos e o almoço no mercado, conte com o dia todo, e com o facto de uma banca de discos lhe poder comer uma hora sem avisar.
O que acontece se chover?
Chuva e feira dão mau casamento. Os monumentos continuam abertos e o mercado coberto serve de abrigo, mas a feira costuma encolher.
Informações Práticas
Onde Estacionar
No Campo de Santa Clara e nas ruas adjacentes o estacionamento é pago e quase impossível à terça e ao sábado, quando as bancas ocupam a praça. Deixe o carro no parque junto à estação de Santa Apolónia e suba a pé: são uns quinze minutos de calçada, com o rio atrás de si. Quem chega antes das nove ainda tem alguma hipótese de lugar na rua, mas não conte com isso.
Transportes
A estação de metro mais próxima é Santa Apolónia, na Linha Azul, e quem pesquisa como chegar ao Campo de Santa Clara de metro deve sair aí e seguir a subida a pé. A estação tem também comboios de longo curso. O elétrico 28 passa na zona da Graça, a poucos minutos a pé do Campo, e é a alternativa mais pitoresca, se não se importar com a fila.
Dicas Práticas
A subida desde Santa Apolónia é comprida, e a calçada de pedra escorrega com chuva. À segunda-feira o Panteão está fechado, por isso evite esse dia neste roteiro. Quem tem mobilidade reduzida deve ir de táxi até ao Campo: a parte difícil é a rua para lá chegar, não a praça. Leve dinheiro em notas pequenas para a feira. A entrada de São Vicente tem uma escadaria imponente.









