
Miradouro de Santa Catarina (Adamastor): Um local para ver o pôr-do-sol sobre o Rio Tejo
📌 Informações Práticas
Aberto diariamente das 07:30 às 22:45 / 23:30 (espaço público com acesso livre)
Uma varanda sobre o Tejo, com a ponte à direita
Subimos a Rua de Santa Catarina ao fim da tarde e o chão acaba de repente: o miradouro fica alto, quase a pique sobre os telhados, e o Tejo abre-se de uma só vez. Vê-se o estuário largo, a Ponte 25 de Abril, os cacilheiros a riscar a água (vistos daqui, parecem brinquedos de banheira) e a margem sul lá ao fundo. Para nós, é uma das melhores vistas do rio em Lisboa.

Fique nos blocos de pedra, virado ao rio.
Os blocos são de lioz e foram assentes na requalificação de 2013, em forma de anfiteatro por cima de um talude de relva e arbustos. Da última vez que passei por ali, os lugares do meio, mesmo em frente à estátua, estavam ocupados bem antes de o sol descer. Chegue cedo e leve um casaco, porque o vento sobe do rio e bate-nos de frente.
A ponte vê-se melhor do lado direito do terraço, junto ao muro.
Da escultura de 1927 à reabertura de 2013
A referência mais antiga que encontrámos a este miradouro é uma tela sem assinatura de 1923. Em 1927 foi inaugurada a escultura do Adamastor, de Júlio Vaz Júnior: uma figura gigante, de rosto fechado, virada para o Tejo, que ainda hoje manda no jardim.

Em 2013 o espaço reabriu depois de uma requalificação desenhada pelo atelier PROAP a pedido da Câmara Municipal de Lisboa. Mexeram no talude, plantaram arbustos, alargaram a zona de estar com os blocos de lioz, e o projeto previa cadeiras inspiradas nas da Praça da Batalha, no Porto, desenhadas por Adalberto Dias.
Houve polémica. O movimento «Libertem o Adamastor» opôs-se à vedação noturna que a câmara aprovou na altura, com a promessa de a avaliar um ano depois do fim das obras — e quem passa hoje de imperial na mão nem imagina a discussão.
O gigante de Camões e o Cabo das Tormentas
O Adamastor nasceu no Canto V d’Os Lusíadas, quando Camões o faz surgir diante da armada de Vasco da Gama como um gigante que ameaça os navegadores ao largo do Cabo das Tormentas. É o cabo que depois se chamou da Boa Esperança, dobrado por Bartolomeu Dias em 1488. A estátua marca esse poema no meio da cidade, e basta ter lido o episódio para o rosto fazer sentido.

O gigante que fazia tremer caravelas aguenta agora imperiais e colunas de som. A única tormenta é a da fila para a esplanada.
Camões tem estátua própria na praça que leva o nome dele, a poucos minutos a pé.
Ver navios: o que conta a tradição oral
Diz-se que a expressão «ficar a ver navios» tem aqui parte da sua origem. Conta a tradição oral que o Alto de Santa Catarina era sítio de quem ia espreitar as velas a entrar no Tejo, à espera de gente, de notícias ou de mercadoria que nem sempre chegava. Há também quem, de boca em boca, ligue o dito às invasões francesas e ao tempo em que se aguardavam navios que não vinham.

É versão de contar ao fim da tarde, não de pôr em nota de rodapé. Um estudo sobre os jardins de Lisboa descreve o Alto como retiro de observadores de navios.
Não sei dizer qual das histórias veio primeiro.
Igreja de Santa Catarina, o ouro que a fachada não deixa adivinhar
A Igreja de Santa Catarina, também chamada Igreja dos Paulistas, fica na Calçada do Combro, 82, a dois minutos a pé do miradouro, do outro lado da rua. Pertenceu ao convento dos eremitas de São Paulo, cuja construção remonta ao século XVII, é hoje monumento nacional e serve de igreja paroquial desde o século XIX.
Da primeira vez passei-lhe à porta sem reparar: a fachada é sóbria, alinhada com a rua, com um átrio exterior. Lá dentro, muda tudo. A capela-mor está forrada a talha dourada, o maior exemplar do género na cidade. Há um teto de estuque rococó, um órgão monumental também dourado, pinturas de Bento Coelho da Silveira e, na sacristia, um pequeno museu de arte sacra.
O terramoto de 1755 danificou-a em parte e a reconstrução fez-se nos anos seguintes. Em maio de 2026, a Assembleia da República aprovou uma resolução a recomendar ao Governo a conservação e reabilitação da igreja e do convento. Entre, mesmo que a fachada não convença: para nós, a capela-mor ganha ao miradouro em espanto.
Há concertos à luz de velas na nave, anunciados à parte.
De costas para o rio: palacetes, Bica e as antigas Portas de Santa Catarina
Quem se vira de costas para o Tejo dá com casarões apalaçados a trepar a encosta rumo ao Bairro Alto: fachadas pintadas, janelas de sacada, varandas de ferro, cantarias nos portais. Achei os palacetes mais interessantes do que o rio — ou talvez fosse só cansaço de olhar a água tempo demais.

O campo começava ali.
As grandes Portas de Santa Catarina marcavam o limite ocidental entre a cidade e a zona rural, e o nome ficou nas ruas (a Rua de Santa Catarina, a Travessa da Condessa do Rio).
A Travessa da Condessa do Rio abre em frente da igreja e leva à Rua de Santa Catarina.
O que ver até 5 km, a pé e de elétrico
A Praça Luís de Camões, com a estátua do poeta, fica a poucos minutos. A Igreja de Jesus está ao virar da esquina da Igreja de Santa Catarina. Em direção ao Chiado, encontra-se A Brasileira. Pessoa está sentado à porta.
Entre os miradouros, o nosso favorito ao pôr do sol é este: o sol desce para os lados da ponte e o rio fica todo à frente. O de São Pedro de Alcântara ganha de manhã, pela vista sobre a Baixa e o Castelo de São Jorge, e tem a vantagem de estar menos disputado a essa hora.
Mais longe, mas ainda dentro dos 5 km, ficam as ruínas do Convento do Carmo, a Igreja de São Roque, a Sé de Lisboa, o Castelo de São Jorge, a Basílica da Estrela e o Museu Nacional de Arte Antiga. Aproveite o elétrico 28, que passa na Calçada do Combro, para esticar o dia.
O Castelo fica do outro lado do vale, depois da Baixa.
Pôr do sol, música e a entrada que custa
Fui num fim de tarde de céu limpo e a entrada foi o que menos me agradou: a esplanada do Adamastor ocupa a zona de acesso, a gente acumula-se à porta e a passagem faz-se aos empurrões. Depois sobem-se uns degraus de pedra e o terraço abre-se. Há sempre alguém a tocar — nesse dia um rapaz passou uns minutos a afinar a mesma corda, sem importância nenhuma, mas lembro-me.
Para fotografar com o telemóvel, chegue uns vinte minutos antes de o sol tocar a ponte. Toque no céu no ecrã para baixar a exposição, e as cores aguentam-se em vez de ficarem queimadas. Enquadre a ponte à direita e a estátua em primeiro plano, a partir de baixo. A meia hora seguinte ao pôr do sol rende por vezes mais do que o próprio pôr do sol.
A subida pela Rua de Santa Catarina é íngreme e de calçada portuguesa, e o terraço é feito de blocos de pedra a alturas diferentes. Não reparei em nenhuma rampa, por isso quem vá de cadeira de rodas deve contar com ajuda. A calçada escorrega quando está húmida.
Onde comer e custos médios
O miradouro é de acesso livre e o gasto do dia fica por conta do que beber. A esplanada do Adamastor serve as imperiais de fim de tarde, e é onde nós ficamos até o céu escurecer.

Para uma bica de manhã, A Brasileira, na Rua Garrett, no Chiado, com a estátua de Pessoa à porta. Para comer a sério, a Cervejaria Trindade, na Rua Nova da Trindade, no Bairro Alto, instalada no antigo convento da Trindade, com salas de azulejos e marisco: é a nossa escolha entre as casas de sempre quando o apetite pede mesa e não pedaço.
O Time Out Market fica no Cais do Sodré. Se preferir provar vários pratos num só sítio, o mercado fica na Avenida 24 de Julho, a uma descida de distância.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quanto tempo devo reservar para o Miradouro de Santa Catarina?
Uma hora chega para ver e fotografar. Se quiser ficar até a luz acabar, conte com duas, sem pressa.
Dá para combinar o Adamastor com a Bica e a Madragoa?
Dá, e faz um bom percurso descendente: desça pela Bica até ao rio e siga para a Madragoa, de ruas mais sossegadas, que costumam estar menos cheias do que as do Bairro Alto.
Vale a pena ir ao Adamastor de manhã?
De manhã a estátua tem o jardim para si e a luz bate de outro lado. Falta a música e o ambiente de fim de tarde.
Onde fica exatamente o Miradouro de Santa Catarina?
Fica entre o Chiado, o Bairro Alto e a Bica, no código postal 1200-403 de Lisboa.
Informações Práticas
Onde Estacionar
O estacionamento à superfície é pouco, quase todo pago e gerido pela EMEL, nas ladeiras estreitas da Bica, do Chiado e do Bairro Alto. À hora do pôr do sol, sobretudo ao fim de semana, rondar à procura de lugar não resulta. Nós deixamos o carro mais longe e fazemos o resto a pé, a subir. Se vier mesmo de carro, procure um parque coberto no Chiado ou no Cais do Sodré antes de se meter nas ruas do Bairro Alto.
Transportes
Metro: estação Baixa-Chiado (linhas azul e verde), com saída para o Chiado, e dez minutos de caminhada até à Calçada do Combro. O elétrico 28 e os autocarros 758, 706 e 727 passam na zona da igreja. Descer do Cais do Sodré é fácil. A volta é a subir.
Dicas Práticas
A calçada portuguesa escorrega com humidade e a subida pela Rua de Santa Catarina é íngreme, por isso calce sola que agarre ao terraço de blocos de pedra. Ao fim da tarde o vento do rio bate direito na cara. A esplanada tapa a entrada principal. Há menos gente de manhã e a meio da tarde, antes de a plateia do pôr do sol chegar.









