
Miradouro de Santa Clara: O Jardim Botto Machado com vista para o Rio Tejo
📌 Informações Práticas
Aberto todos os dias das 08:00 às 21:00
Um jardim em socalcos com o Tejo ao fundo
O Jardim Botto Machado, também conhecido como Miradouro de Santa Clara, abre-se para o Tejo a meio da encosta de São Vicente. Data de 1862 e reabriu em 2009, depois de obras, com um quiosque que ainda hoje faz de esplanada. O rio aparece entre prédios e copas de árvores, com a margem do Montijo lá ao fundo, e à direita impõe-se a massa branca do Panteão Nacional. Não é o miradouro mais espetacular de Lisboa. Mas é onde nos sentamos sem pressa.

É talvez o miradouro mais desconhecido da cidade. Estive lá num sábado, dia de feira, e logo à entrada vi dezenas de comerciantes com bancas pequenas, de artesanato, de roupa, de gente a desenhar retratos a quem passava, que pelo que percebi não tinham lugar na Feira da Ladra mas tinham aqui o seu canto. Num dia normal não haveria nada disto.
Mais abaixo, uma esplanada estava cheia, com os clientes a aproveitar o rio ao longe. Não sei se enche sempre assim aos sábados, mas nesse enchia. Achei bonito, ou se calhar era só o sábado a fazer-me ver tudo com outros olhos (o Tejo, a bem dizer, aparece aos bocados, cortado por prédios). Há parque infantil, com crianças à vontade, e muita gente a passear.
Debaixo de um banco, um cão de pelo claro dormia sem querer saber do rio nem do Panteão.
Feira da Ladra, ao nascer do dia
Às terças e aos sábados o Campo de Santa Clara muda de cara. A Feira da Ladra, cuja origem o Turismo de Lisboa recua a 1272, andou por vários pontos da cidade até se instalar aqui em 1882, atrás do mosteiro de São Vicente de Fora. Vende-se de tudo: velharias, roupa em segunda mão, artesanato, objetos que ninguém sabe bem para que servem.

As melhores compras fazem-se ao nascer do dia. Ponha o despertador cedo, leve trocos e prepare-se para regatear — e é a parte difícil, porque ninguém quer ceder primeiro. Quem chega às onze já vê os melhores achados no saco de outra pessoa. A entrada é livre.

O nome tem teorias a mais: objetos roubados, os piolhos das velharias (o «ladro»), as feiras parisienses de Saint-Ladre, ou o antigo «lada», que em português antigo seria margem de rio. Sérgio Godinho imortalizou-a num poema.
Panteão Nacional: o monumento que nunca mais ficava pronto
Os lisboetas ainda lhe chamam Igreja de Santa Engrácia, e com razão: foi como igreja que a infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, a mandou construir em 1568. As obras arrastaram-se de tal forma que a expressão «obras de Santa Engrácia» ficou na língua para tudo o que não acaba. A cúpula só ganhou a forma de hoje nos anos 60 do século XX, com projeto do engenheiro Edgar Cardoso, e o Panteão foi inaugurado em 1966.
Por dentro há mármore claro, cenotáfios de figuras dos Descobrimentos como Nuno Álvares Pereira e túmulos de escritores e presidentes da República. Amália Rodrigues tem aqui o seu, e Eusébio também aqui tem lugar, decisão que deu alguma polémica.
Suba ao terraço em volta da base da cúpula. É o nosso miradouro favorito da zona, mais alto, mais aberto e mais sossegado do que o jardim, e o bilhete, que ronda os 10 euros, já o inclui. Depois de tantos séculos de andaimes, ao menos o horário cumpre-se: abre de terça a domingo. Segunda-feira, nem pense.
O que se conta de Simão Pires e Violante
Conta a tradição oral que um jovem chamado Simão Pires atravessava o largo às escondidas para ver Violante, noviça no convento vizinho de Santa Clara. Foi apanhado perto da igreja, acusado de roubar umas relíquias e condenado à fogueira sem ter feito nada. Diz-se que, ao morrer, lançou uma maldição sobre a obra. A igreja ficaria por acabar durante séculos.
Mosteiro de São Vicente de Fora e os azulejos
O Mosteiro de São Vicente de Fora fica no Largo de São Vicente, mesmo atrás da feira, e tem a fachada mais séria da colina. A tradição liga o lugar a D. Afonso Henriques e à conquista de Lisboa, em 1147: o rei teria prometido um mosteiro ao santo padroeiro da cidade se a tomasse aos mouros. A primeira pedra do edifício atual foi lançada em 1582, com projeto de Filippo Terzi, e a obra ainda se arrastou pelo século XVIII.
Dentro, os claustros estão forrados de painéis de azulejos do século XVIII, a maior coleção de azulejaria barroca reunida num edifício, e a Galeria das Fábulas merece uma paragem demorada. Há ainda o Panteão Real dos Bragança, uma cisterna medieval e os terraços sobre Alfama e o Tejo.
Abre das 10h às 18h. Última entrada às 17h. Num sábado de feira tivemos de contornar bancas e toldos para chegar ao largo, e perdemos uns bons minutos nisso. Se só tiver tempo para um monumento por dentro, escolha este, pelos azulejos; o Panteão fica para a vista.
Santa Luzia, Portas do Sol e o resto da colina
Daqui, a pé e sempre a descer, o Miradouro de Santa Luzia fica a menos de um quilómetro e as Portas do Sol quase a seguir, e é nestes dois que o Tejo se abre de verdade sobre os telhados de Alfama, sem prédios a cortar a vista. Para ver o rio, Santa Luzia é o nosso primeiro. Para sentar com um sumo e meia hora de calma, o Botto Machado ganha-lhe (a descida faz-se bem; a subida de regresso é que pede fôlego).
O Museu de Artes Decorativas, nas Portas do Sol, e o Museu do Fado ficam logo ali. O Museu Militar de Lisboa está ainda mais perto do Campo de Santa Clara, e confesso que nunca passei da fachada. O Castelo de São Jorge e a Sé de Lisboa ficam à volta de um quilómetro, a Casa dos Bicos já perto do rio.
Mais longe, a dois quilómetros e pouco, a Praça do Comércio e o Museu Nacional do Azulejo, no antigo Convento da Madre de Deus.
Como encaixar tudo num dia
Escolha uma terça ou um sábado e comece cedo, com a feira primeiro, que é quando está viva. A meio da manhã passe pelo jardim, tome um café na esplanada e veja como a coisa se enche. Depois suba ao Panteão, almoce no mercado ou no quiosque, e guarde a tarde para São Vicente de Fora. Quando as pernas deixarem, desça a Santa Luzia.
A feira e o jardim são de graça. Os dois monumentos pagam-se à entrada.
Repare numa coisa — as terças e os sábados são os únicos dias em que tudo isto funciona em simultâneo. O Mercado de Santa Clara fecha às 14h.
Onde comer junto ao Campo de Santa Clara
O Clara Clara Café é o quiosque-esplanada do Jardim Botto Machado, na morada Campo de Santa Clara, 1100-472 Lisboa, e é a nossa escolha para parar. Serve tostas, crepes e scones, uma seleção de queijos e vinhos, limonada e batidos de fruta natural. Há vinho verde à pressão. No inverno aparecem mantinhas e aquecedores; no verão, a sombra do arvoredo e o rio ao longe.
Para uma refeição antes das duas da tarde, o Mercado de Santa Clara, mesmo em frente ao jardim (telefone 218 868 884), abre de segunda a sábado das 7h às 14h. É o mais antigo dos mercados cobertos de Lisboa, de 1877, e ganhou ao longo dos anos ateliês e lojas de criadores.
A esplanada cheia, como a encontrei num sábado, pede chegada cedo ou paciência para olhar para as mesas dos outros. O Clara Clara organiza, com alguma regularidade, concertos e espetáculos para crianças.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Vale a pena ir ao jardim num dia sem feira?
Vale, com mais sossego e mesas livres na esplanada. O ambiente, porém, perde metade da animação.
Posso levar o cão ao Jardim Botto Machado?
Sim, o jardim tem um parque para cães. No resto do espaço andam crianças a correr, por isso a trela deve ser curta.
Porque se chama São Vicente de Fora?
Porque a primeira igreja dedicada ao santo ficava fora das muralhas medievais de Lisboa.
Quanto tempo devo reservar só para o jardim?
Uma hora chega para dar a volta. Se pedir uma bebida na esplanada, conte com mais um bocado.
Informações Práticas
Onde Estacionar
Em dias de feira, terça e sábado, o Campo de Santa Clara está tomado pelas bancas e as ruas à volta enchem cedo. Não conte chegar de carro à porta. A melhor solução é estacionar junto à estação de Santa Apolónia, onde há parques pagos, e fazer a subida a pé. Na rua, nesta zona de Lisboa, o estacionamento é em regra pago e limitado.
Transportes
O metro de Santa Apolónia (linha Azul) deixa-o a cerca de dez minutos, sempre a subir, do Campo de Santa Clara. A estação ferroviária de Santa Apolónia fica mesmo ao lado, para quem chega de comboio. O elétrico 28 pára no Voz do Operário, a dois passos do Largo de São Vicente.
Dicas Práticas
A calçada junto ao largo é de pedra irregular e escorrega depois da chuva. O quiosque do jardim tem casa de banho adaptada e acesso sem degraus a partir do portão. À sombra do arvoredo a esplanada aguenta-se bem no verão. Chegue antes das dez nos dias de feira, ou escolha um dia sem mercado, se quiser mesa à primeira.









