Abre num novo separador
Chafariz da Esperança: Fontanário
Chafariz da Esperança

Chafariz da Esperança

📌 Informações Práticas

📍 Morada: Largo da Esperança / Av. Dom Carlos I, 1200-647 Lisboa, Portugal
💶 Preço: gratuito
⏰ Horário:

Aberto 24 horas (espaço público exterior)

Como Chegar (Google Maps)

O Chafariz da Esperança está encostado à fachada de um prédio na Avenida Dom Carlos I, quase como um cenário de teatro montado à pressa. A pedra é escura, cheia de veios, e as duas escadas laterais dão ao conjunto um ar de palco que se ergue por cima do largo.

Chafariz da Esperança: Carranca
Chafariz da Esperança: Carranca

Fomos lá num dia de calor a sério, com o sol a bater em cheio na fachada, e o chafariz estava seco. Nem uma pinga. Apetecia beber qualquer coisa ali mesmo — se a água fosse potável, o que hoje não é o caso, teria sido a bebedeira mais improvável de Lisboa. A avenida em baixo seguia o seu trânsito normal, sem que quase ninguém erguesse os olhos para a fachada por cima das suas cabeças.

Carlos Mardel desenha, Miguel Ângelo Blasco termina

O projeto foi aprovado em 15 de novembro de 1752 e atribuído a Carlos Mardel, arquiteto de origem húngara que por essa altura já tinha meia cidade a chamar por ele. Mardel foi o nome por trás de boa parte da engenharia visível das Águas Livres — o Aqueduto, o Arco das Amoreiras, o reservatório da Mãe d’Água — e o Chafariz da Esperança entrou nessa lista de encomendas régias como mais uma peça do sistema. Não chegou a ver a obra terminada.

Chafariz da Esperança: Largo da Esperança
Chafariz da Esperança: Largo da Esperança

Morreu em 1763, e coube a Miguel Ângelo Blasco fechar o projeto, entregando-o pronto em 1768, dezasseis anos depois da aprovação inicial. Dê-se ao tempo de subir devagar as escadas laterais, para reparar nas diferenças de acabamento entre os dois pisos — uma autoria dividida que raramente aparece nas placas turísticas.

Dois pisos, duas funções

A estrutura organiza-se em dois planos, ligados pelas escadas laterais já referidas. No piso inferior, ao nível da rua, há um tanque único, baixo e de bordo curvo, alimentado por bicas em forma de carranca — ali bebiam os animais, numa Lisboa onde cavalos e mulas ainda faziam parte do trânsito diário. No piso superior, três tanques recebiam água por outras tantas bicas, estas destinadas ao abastecimento direto da população.

Chafariz da Esperança: Fontanário
Chafariz da Esperança: Fontanário

A separação não era só estética: evitava misturar a água dos animais com a das pessoas. As bicas de baixo eram exclusivamente para os bichos; as de cima, só para quem enchia o cântaro de casa.

A água que vinha das Amoreiras

O caudal que chegava à Esperança vinha da galeria com o mesmo nome, ligada ao reservatório das Amoreiras, esse depósito monumental que Mardel também desenhou. O chafariz era um dos ramais finais da grande obra joanina do Aqueduto das Águas Livres, pensada para resolver o abastecimento de água a Lisboa. Trinta chafarizes espalhados pela cidade bebiam dessa mesma rede subterrânea, cada um a alimentar o seu bairro. O da Esperança servia Madragoa e Santos-o-Velho, então uma zona de pescadores e varinas, longe do glamour da Lapa vizinha.

Um retábulo de pedra

Chamar-lhe barroco não chega. O espaldar superior tem parastases a dividir o painel, remata em vasos com flores e alcachofras esculpidas, e ao centro ostenta as armas reais — um resumo de ornamento que já pisca o olho ao rococó sem se comprometer de todo com ele. As pilastras toscanas do piso inferior são mais sóbrias, quase austeras, como se os dois andares tivessem sido pensados por gente com gostos diferentes.

Chafariz da Esperança

Repare nas alcachofras esculpidas junto aos vasos de flores — é um pormenor fácil de perder à primeira vista, e achámos-lhe graça: não é todos os dias que se vê um legume esculpido a decorar um monumento nacional, ainda por cima tão perto de tantas tascas que as servem grelhadas ao lado. A fachada inteira funciona como pano de fundo cenográfico, montado para se ver de longe, da rua principal.

Noventa e nove aguadeiros e um “ligeiro”

O chafariz tinha ao seu serviço três companhias de aguadeiros, com três capatazes a coordenar noventa e nove aguadeiros e um único “ligeiro” — o nome mais poético que a burocracia de Lisboa alguma vez deu a um estafeta. Eram eles que enchiam os potes e cântaros das casas vizinhas, num vaivém constante entre o chafariz e as ruas da Madragoa, numa altura em que ter água canalizada dentro de casa ainda era coisa rara. O trabalho tinha hierarquia própria, quase militar, com postos bem definidos dentro de cada companhia. Não sabemos ao certo quantas viagens fazia cada aguadeiro por dia, mas dado o peso da água às costas, arriscamos dizer que não seriam muitas de cada vez.

1889: a avenida que mudou a moldura do chafariz

Em 1889 abriu a Avenida Dom Carlos I, e o Largo da Esperança perdeu boa parte da sua envolvência original. O prédio que hoje encosta ao chafariz nasceu dessa remodelação urbana, com fachada desenhada de propósito para servir de pano de fundo ao monumento — uma solução elegante para não o deixar a apontar para o nada. Décadas depois, esse mesmo prédio passou por obras de reabilitação que lhe mudaram o nome para Casa Chafariz, preservando os azulejos antigos e as janelas de madeira. Foi também nessa altura, já perto de 2019, que a água voltou a correr pelo chafariz depois de anos parada — o que torna ainda mais irónico tê-lo encontrado seco na nossa visita.

O tanque que já não existe

O excedente de água do chafariz seguia para o Tanque das Lavadeiras, na Rua Nova do Cais do Tojo, onde as mulheres da zona lavavam roupa em bateladas. Esse tanque já não existe. Sobra o nome na toponímia antiga e uma nota ocasional em estudos sobre a rede de água da cidade — nunca fomos capazes de encontrar mais do que isso.

Madragoa, marionetas e pintura antiga

A cem metros dali, na Rua da Esperança nº 146, funciona o Museu da Marioneta, instalado no antigo Convento das Bernardas — um dos museus mais originais de Lisboa, com marionetas de teatro popular a partilhar espaço com claustros seiscentistas. Chegámos lá por engano, depois de virar na rua errada a subir desde o largo, mas a volta extra nem se sentiu. Descendo em direção ao rio chega-se à Rua das Janelas Verdes e ao Museu Nacional de Arte Antiga, com a coleção de pintura portuguesa mais importante do país. Para quem prefere subir, a Basílica da Estrela e o respetivo jardim ficam a uma caminhada tranquila, com bancos e sombra que o Largo da Esperança não tem. Reserve uns minutos extra para o museu da marioneta — é pequeno, mas denso.

Fim de tarde no Largo da Esperança

Ao final da tarde, a esplanada em frente ao chafariz enche-se de gente do bairro — na última vez que passámos por ali, havia um grupo a assistir a um jogo de futebol, todos virados para um televisor pendurado a um canto, com o chafariz seco a servir de pano de fundo em vez de protagonista.

Chafariz da Esperança: Esplanada
Chafariz da Esperança: Esplanada

Arriscaria dizer que à noite o largo ganha ainda mais vida, pela proximidade dos bares e de uma discoteca ali mesmo ao lado, mas isso é conversa de outros — não fomos lá de noite para confirmar. Entre as esplanadas da zona, a nossa preferida continua a ser esta, mesmo em frente ao monumento — não pela comida, que é simples, mas por ficar de frente para as carrancas de pedra enquanto se bebe um café. Achámos o ambiente sossegado, quase caseiro — ou talvez fosse só o calor a amolecer tudo à nossa volta, connosco incluídos.

Chafariz da Esperança: Discoteca Xafaria

Onde comer e custos médios

A Rua da Esperança, que dá nome ao chafariz, é também onde se concentra a oferta gastronómica mais interessante do bairro. A La Madragoa Restaurante, no número 91, é uma sala pequena, gerida em regime familiar — pedimos o arroz de marisco e não nos arrependemos, mas também há bacalhau à lagareiro e sardinhas grelhadas para quem prefere o clássico. São só vinte lugares.

Mais abaixo na mesma rua, no número 178, fica o O Tachadas, aposta segura para comida portuguesa sem sobressaltos. A Taberna da Esperança, também na mesma artéria, mantém o conceito de taberna de bairro com pratos tradicionais servidos em loiça simples.

Para petiscos para partilhar, a Taberna Ideal na Madragoa serve os picos da matança com figos e migas de tomate a 9,90€ — boa escolha para uma refeição informal entre amigos. Peça as pataniscas da Varina da Madragoa (10,5€, dose generosa) e, se preferir carne, os escalopes de vitela panados (10,5€) — este era um dos restaurantes preferidos de José Saramago. Num sábado à noite, a sala da La Madragoa enche em poucos minutos.

Perguntas Frequentes

É possível visitar o Chafariz da Esperança fora de horas?

Sim. Está numa praça exterior, sem grades nem horário de fecho, por isso pode ser visto de manhã cedo ou depois do jantar, consoante o que preferir ver — de dia a pedra, à noite o movimento das esplanadas.

O Chafariz da Esperança costuma ter água a correr?

Nem sempre. É melhor não contar com isso e tratar como um bónus se acontecer.

Vale a pena combinar a visita com o Museu da Marioneta?

Sim, ficam a poucos minutos um do outro e o contraste entre a pedra do chafariz e as marionetas do convento é dos mais curiosos da zona.

Há algum custo para estacionar perto do Chafariz da Esperança?

Não há parque dedicado ao monumento; o estacionamento na rua é pago em horário EMEL, por isso o mais simples costuma ser ir de comboio ou elétrico.

Informações Práticas

Onde Estacionar

Não existe parque dedicado junto ao chafariz — é uma praça pequena, pensada para se atravessar a pé, não para estacionar ao lado. Na rua há lugares pagos em horário EMEL, normalmente ocupados desde cedo por quem trabalha na zona. A opção mais tranquila é deixar o carro mais perto do Cais do Sodré, num dos parques públicos da zona ribeirinha, e subir a pé até ao Largo da Esperança — cerca de dez a quinze minutos, a maior parte em subida ligeira.

Transportes

A estação de Santos, na Linha de Cascais, fica a cerca de 600 metros e é a ligação ferroviária mais próxima. O elétrico 25E, entre Campo de Ourique e Cais do Sodré, passa pela zona da Lapa e de Santos, perto do chafariz. Várias carreiras de autocarro da Carris cruzam a Avenida 24 de Julho, ali ao lado. A pé desde o Cais do Sodré, a caminhada demora cerca de quinze minutos, em subida moderada.

Dicas Práticas

O piso à volta do chafariz é de calçada portuguesa, escorregadia com chuva — leve calçado com boa aderência. Não há praticamente sombra no largo, e ao final da tarde o vento costuma bater direito na fachada de pedra. As primeiras horas da manhã são as mais calmas, antes de a esplanada encher. O acesso ao largo é em piso térreo e plano, mas a rua que sobe até lá tem inclinação que pode complicar a vida a quem usa cadeira de rodas ou tem mobilidade reduzida.

💡 Dica de Ouro

Observe os pormenores da fachada decorada com o brasão real de D. José I e combine a visita com uma caminhada pelo charmoso bairro de Santos e pela zona envolvente da Madragoa.
🏛️ Ano de Construção: 1753–1768 (projetado em 1752, concluído em 1768)
👤 Arquiteto: Carlos Mardel (projeto concluído por Miguel Ângelo Blasco)
🎨 Estilo: Barroco
📜 Património: Monumento Nacional

Vê também